I. Os Príncipes dos Exércitos do Senhor

Poder dos anjos sobre o homem

O anjo pode produzir efeitos corpóreos maravilhosos. Ele pode, através do movimento que imprime à matéria, produzir mudanças nos corpos, mas de tal forma que apenas se sirva da natrureza, desdobrando as potencialidades dela.

Assim ele pode, nos homens, favorecer ou impedir a nutrição ou provocar doenças. Mas ele não pode fazer qualquer coisa que esteja completamente acima da natureza, como por exemplo ressuscitar pessoas mortas.

O anjo tem ainda o poder de favorecer ou impedir os movimentos da sensualidade, a delectação, a dor, a ira, a memória e afetar de vários modos os sentidos externos e internos, isto é, os cinco sentidos, a memória e a imaginação.

Do mesmo, modo o anjo pode aguçar a força da inteligência e, de um modo indireto, mover quer o intelecto — excitando imagens na fantasia ou propondo questões — quer a vontade, solicitando-a para que escolha algo.

O anjo pode formar para si um corpo com o qual aparece aos homens como, por exemplo, o arcanjo São Rafael fez com Tobias.  Santo Agostinho diz que os anjos aparecem aos homens com um corpo que eles não somente podem ver, mas também tocar, como é provado pela Escritura (Gen 18, 2ss; Lc 1, 26ss; At 12, 7ss; o livro de Tobias).

O anjo move o corpo que assume, como nós poderíamos mover um boneco, dando a impressão de que ele está vivo, fazendo-os imitar os movimentos do homem. Quando São Rafael parecia comer na companhia de Tobias, ele apenas fazia o corpo do qual estava se servindo mover-se como faz um homem nessa circunstância, mas sem consumir o alimento.

Os espíritos angélicos não podem fazer milagres propriamente ditos, mas sim coisas maravilhosas, que ultrapassam o póder humano, não porém o angélico. Por exemplo, graças ao seu poder e conhecimento extraordinário, podem curar doenças, restituir a vista a cegos (Tob 11, 15); fazer prodígios como elevar uma pessoa e carregá-la pelos ares (Dan 14, 15), fazer falar serpente (Gen. 3, Iss), etc.

[Fonte: SOLIMEO, Gustavo A., Luiz S. Anjos e demônios - a luta contra o poder das trevas. São Paulo: Artpress, 1995.]

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I. Os Príncipes dos Exércitos do Senhor

Poder dos anjos sobre a matéria


É um tanto misterioso a nós o modo como os anjos, seres espirituais, possam mover a matéria.

No entanto tal poder está formalmente revelado, como se pode ver, por exemplo, no livro de Daniel. O profeta fora jogado na cova dos leões para que perecesse; por ação divina, os animais não fizeram mal: “O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou a boca dos leões e estes não me fizeram mal algum” (Dan 6, 21). No entanto, para alimentá-lo, Deus quis servir-se do profeta Habacuc, conduzido até a cova por um anjo.

Narra a Escritura: “Estava então o Profeta Habacuc na Judéia, e tinha cozido um caldo, e esfarelado uns pães dentro duma vasilha, e ia levá-los ao campo aos ceifeiros que lá estavam. E o anjo do Senhor disse a Habacuc: Leva a Babilônia essa refeição que tens, para a dares a Daniel que está na cova dos leões. E Habacuc respondeu: Senhor eu nunca vi a Babilônia e não sei onde é a cova.  Então o anjo do Senhor tomou-o pelo alto da cabeça e, tendo-o pelos cabelos, levou-o com a impetuosidade do seu espírito até Babilônia, sobre a cova” (Dan 14, 32-35).

O próprio Salvador deixou-se carregar pelo demônio até o alto monte para ser tentado (cf. Mt 4, 5-8).

Em São Mateus, sobre a Ressurreição de Nosso Senhor, está escrito: “Um anjo do Senhor desceu do céu, e, aproximando-se, revolveu a  pedra, e estava sentado sobre ela” (Mt 28, 2).

Embora a questão, como dissemos, seja algo misteriosa, procuraremos sintetizar aqui a doutrina de São Tomás de Aquino a respeito.

Antes de tudo, convém lembrar o que ensina o santo Doutor a respeito do modo como os anjos encontram-se em um lugar: enquanto os seres corpóreos manifestam sua presença num lugar circunscrevendo-o pelo contato físico de seu corpo com o lugar ocupado, as criaturas incorpóreas delimitam o lugar por meio de um contato operativo. Quer dizer: elas estão no lugar onde agem.

Quanto ao modo como os anjos movem a matéria, é a seguinte explicação tomista:

O ser superior pode mover os inferiores porque tem em si, de um modo mais eminente, as virtualidades desses seres inferiores.  Assim, o corpo humano é movido por algo superior a ele, a alma, que é espiritual, a qual, através da vontade, que também é imaterial, move os membros corpóreos a seu bel-prazer; logo, não repugna à razão que uma substância espiritual possa mover a matéria.

Entretanto, no caso da alma humana, ela só pode mover diretamente aquele corpo com o qual está substancialmente unida; as demais coisas, ela só pode mover por meio desse corpo; ora, como os anjos são seres espirituais, não estando substancialmente unidos a nenhum corpo material, sua força de ação sobre a matéria não está delimitada por nenhum corpo determinado; dai se segue que eles podem mover livremente qualquer matéria.

Esse movimento se produz pelo contato operativo do anjo a matéria, impulsionando um primeiro movimento local; por meio desse primeiro movimento local o anjo pode produzir outros movimentos na matéria utilizando-se dos próprios recursos dela, com o ferreiro se utiliza do fogo para dobrar o ferro.

O Cardeal Lepicier observa que, como os anjos possuem conhecimento das leis físicas e químicas que ultrapassa tudo quanto a Ciência possa ter descoberto ou venha a descobrir, e, além do mais, têm um poder imenso sobre a matéria, podemos dizer que dificilmente se encontrarão no Universo fenômenos que os anjos não possam produzir, de um modo ou de outro. Esses fenômenos são por vezes tão surpreendentes, que chegam a parecer verdadeiros milagres. Porém, não são milagres, pois embora ultrapassem de longe a capacidade dos homens, não estão acima do poder angélico. Ele exemplifica:

“Um rápido exame dos fenômenos que ocorrem no mundo físico bastará para nos dar uma idéia dos maravilhosos efeitos a que os seres angélicos podem dar causa. Em primeiro lugar, assim como, devido às forças da natureza, massas enormes se podem deslocar, ou, sob a ação de agentes físicos, os elementos da matérias dissolvem ou trabalham em conjunto, como quando provocam as tempestades, furacões e procelas — assim também um anjo, sem a cooperação de quaisquer agentes intermediários, transfere de um lugar para outro os corpos mais pesados, levanta-os e conserva-os suspensos durante determinado tempo, agita as mais pesadas substâncias e provoca colisões entre elas. Pode o mesmo anjo revolver cidades e vilas, provocar terremotos e encapelar as ondas do mar, originrar tempestades e furacões, parar a corrente dos rios e, se assim o entender, dividir as águas do mar.

“Além de tudo isso, pode também um anjo, usando das próprias forças, produzir os mais surpreendentes efeitos óticos, não só obrigando substâncias desconhecidas para nós espargir jorros de luz, mas também projetanto sombras que se assemelham a representações fantasmagóricas. Pode ainda, sem a ajuda de qualquer instrumento, pôr em movimento os elementos da matéria, fazer ouvir a música mais harmoniosa ou produzir os mais estranhos ruídos, tais como pancadas repetidas ou explosões súbitas. São ainda os anjos capazes de aglomerar nuvens, provocar relâmpagos e trovões, arrancar árvores gigantescas, arrasar edifícios, rasgar tecidos e quebrar as rochas mais duras. É-lhes também possível fazer com que um lápis escreva, por assim dizer automáticamente, certas frases com um sentido inteligível, assim como dar aos objetos formas diferentes das que são peculiares à sua natureza.  Podem, até certo ponto, suspender as funções da vida, parar a respiração dum corpo, acelerar a circulação do sangue e fazer com sementes lançadas à terra cresçam dentro de pouco tempo, até atingirem a altura duma árvore, com folhas, botões e até com frutos.

[Fonte: SOLIMEO, Gustavo A., Luiz S. Anjos e demônios - a luta contra o poder das trevas. São Paulo: Artpress, 1995.]

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I. Os Príncipes dos Exércitos do Senhor

A natureza angélica

É tal o esplendor de um anjo, que as pessoas às quais eles aparecem muitas vezes se prostram por terra por temor e reverência para adorá-los, pensando que se trata do próprio Deus — conforme relato das Escrituras e da vida dos santos. E assim que São João conta no Apocalipse: “Prostrei-me aos pés do anjo para o adorar; porém ele disse-me: Vê, não faças tal; porque eu sou servo de Deus como tu …. Adora a Deus” (Apoc 22,9).

Seres racionais e livres

Os anjos são seres intelectuais ou racionais, inferiores a Deus e mais perfeitos que os homens. Eles são puros espíritos, não estando ligados a um corpo como nós; são dotados de uma inteligência luminosa e de vontade livre e possante.

Tendo sido criados por Deus do nada, como tudo o mais, os pelo próprio fato de serem puramente espirituais, são imortais, pois não têm nenhuma ligação com a matéria corruptível, como os homens.

Ao contrário da natureza do homem, que é composta (isto é, formada de dois elementos distintos, o corpo e a alma) os anjos têm natureza simples, puramente espiritual. Embora a alma humana seja igualmente espiritual, ela foi criada por Deus para viver em união substancial com o corpo; quando se dá a morte e a alma se separa do corpo, ela permanece em um estado de violência, enquanto não se dá a ressurreição dos corpos.

Já os anjos não têm necessidade de um corpo como o homem.  Desse modo, é um ser muito mais perfeito, sendo inferior, quanto à natureza, apenas ao próprio Deus. Não se pode pois, ao pensar nos anjos, concebê-los à maneira de uma alma humana separada de seu corpo. Esta última não é capaz daquilo que o anjo pode fazer sua simples natureza.

Tal como o homem, os anjos existem realmente enquanto pessoas; ou seja, eles são substâncias individuais, dotadas de inteligência e livre arbítrio. Em outros termos, eles têm uma existência real, distinta da de outros seres, sendo capazes de conhecer, de amar, de servir, de escolher entre uma coisa e outra. Eles não são portanto, seres imaginários, fictícios, concebidos pelo homem como mero modo poético de exprimir-se, ou como personificações das virtudes e dos vícios humanos ou das forças da natureza,nem tampouco emanações do poder de Deus.

Os anjos foram elevados à ordem sobrenatural, isto é chamados a participar da vida da graça, cujo fim é a visão beatífica de Deus. Esta elevação é gratuita, mas discute-se em que momento se deu (para São Tomás, foi no momento mesmo de sua criação); é de fé que os anjos deveram sofrer uma prova, porém não se sabe qual teria sido. Depois da prova cessou para eles o tempo de merecer; é também de fé que os anjos bons gozaram e gozam para sempre visão beatífica e que os maus foram condenados a uma pena eterna.


Conhecimento e comunicação angélica

É questão de livre discussão tudo quanto se refere ao conhecimento angélico, à comunicação de uns com os outros, bem como o que se refere ao seu ato de vontade; é certo que sua capacidade de conhecer — embora incomparavelmente superior à do homem — é limitada: eles não conhecem naturalmente os mistérios divinos, nem o futuro livre ou contingente; também é certo que têm pleno livre arbítrio.

Para dar uma idéia da perfeição do conhecimento angélico, parece oportuno transcrever a explicação do Cardeal Lepicier, grande especialista na matéria.

Comparando o modo de conhecimento humano com o angélico, ressalta o Cardeal que Deus infundiu no intelecto dos anjos, logo que os criou, representações de todas as coisas naturais. Estas imagens “são não somente representativas de princípios gerais que regulam cada ciência particular, mas encerram também, distintamente, todos os pormenores virtualmente contidos nesses princípios, de maneira que uma e a mesma imagem informa a mente angélica das particularidades de cada ciência. Não poderá pois haver confusão na mente angélica, quando ela passa da observação de um para a observação de outro…

“Um anjo, com um simples olhar à imagem que representa — digamos — o reino animal, conhece não só as várias espécies de animais existentes, mas também cada indivíduo que exista ou tenha existido dentro de cada espécie, assim como as suas propriedades particulares e os seus meios de ação. E o mesmo sucede com o conhecimento de qualquer objeto, seja ele qual for, que se encontre no reino da natureza, seja orgânico ou inorgânico, material ou espiritual visível ou invisível.

Chama-se futuro livre ou contingente aquele que depende, seja da vontade divina, seja da humana. Distingue-se do futuro necessário, o qual não depende do livre arbítrio, mas decorre de causas que, uma vez postas, levam necessariamente a um determinado efeito.  Assim, à noite sucede o dia; a semente, lançada à terra, germinará dentro de determinado tempo, se se verificarem todas as condições necessárias a isso, independentemente da vontade divina (que já está manifestada no ato da criação da espécie) ou da natureza humana.

“Por aqui se pode ver que a ciência humana é muito excedida pela ciência da mente angélica, tanto em extensão com precisão”.

São Tomás explica do seguinte modo a comunicação dos anjos entre si: como nós homens, os anjos têm o verbo interior ou verbo mental, com o qual falamos a nós mesmos ou formulamos os conceitos interiormente. Mas, enquanto nós só podemos comunicar esse pensamento a outros por meio da palavra oral, ou de outro meio externo, pois entre nós e os demais existe a barreira do nosso corpo, que vela o pensamento, os anjos não têm essa barreira corpórea; assim, basta a eles, por um ato de vontade, se dirigirem a outros anjos, para que seu pensamento — ou seja, esse verbo interior ou verbo mental — se manifeste a eles.

Como os anjos são diferentes entre si, e uns são mais perfeitos que outros, os mais perfeitos iluminam os menos perfeitos cor comunicando-lhes aquilo que eles vêem mais em Deus.

Do mesmo modo, eles podem iluminar os homens, comunicando-lhes bons pensamentos, embora de forma diferente daquela pela qual um anjo se comunica com outro. Como a mente humana necessita do concurso da fantasia para entender as coisas, os anjos comunicam as verdades ao homem por meio de imagens sensíveis

Quanto à vontade humana, só Deus ou o próprio homem são capazes de movê-la eficazmente; o anjo, ou outro homem. só podem movê-la por meio da persuasão.

[Fonte: SOLIMEO, Gustavo A., Luiz S. Anjos e demônios - a luta contra o poder das trevas. São Paulo: Artpress, 1995.]

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I. Os Príncipes dos Exércitos do Senhor

Os nove coros angélicos


Existem diferenças entre os anjos, mas não consta na Revelação qual sua origem nem seu modo preciso. É questão de livre discussão se os anjos são todos da mesma espécie, ou se existem tantas espécies quantos são os coros, ou se cada indivíduo constitui uma espécie por si (opinião de São Tomás).


De acordo com uma tradição que remonta ao Pseudo-Dionísio Areopagita, os teólogos costumam agrupá-los em nove ordens ou coros angèlicos, distribuídos em três hierarquias ( os nomes são tomados da Sagrada Escritura):

Primeira hierarquia - Serafins, Querubins, Tronos;

Segunda hierarquia - Dominações, Potestades, Virtudes;

Terceira hierarquia - Principados, Arcanjos e Anjos.

Os anjos dos três primeiros coros ou primeira hierarquia - Serafins, Querubins e Tronos contemplam e glorificam continuamente a Deus: ” Vi o Senhor sentado sobre um alto e elevado trono… Os Serafins estavam por cima do trono … E clamavam um para o outro e diziam: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos exércitos” (Is 6, 1-3 ). ” O Senhor reina … está sentado sobre querubins” (Sl 98,1); os três coros seguintes - Dominações, Virtudes  e Potestades - ocupam-se do governo do mundo; finalmente, os três últimos - Principados, Arcanjos e Anjos - executam as órdens de Deus:  “Bendizei ao Senhor, vós todos os seus anjos, fortes e poderosos, que executais as suas ordens e obedeceis as suas palavras” (Sl 102, 20).

Todos eles podem entretanto ser chamados genericamente anjos, estando à disposição de Deus para executar suas vontades.  Embora o Evangelho, na Anunciação a Maria, se refira ao anjo Gabriel ( Lc 1,26), isto não quer dizer que ele pertença à última das hierarquias angélicas, pois a sublimidade dessa embaixada leva a supor que se trate de um dos primeiros espíritos que assistem diante de Deus.

Os três arcanjos - como são conhecidos comumente São Miguel, São Gabriel e São Rafael - pertencem, provavelmente, à mais alta hierarquia angélica.  Falaremos deles mais adiante.

Embora não conheçamos, o número exato dos anjos, sabemos, pelas Escrituras e pela Tradição, que são muitíssimos,.  É o que lemos no livro do Apocalipse: “E ouvi a voz de muitos anjos em volta do trono … e era o número deles milhares e milhares”

(Apoc 5, 11). E no livro de Daniel: “Eram milhares de milhares de milhares (os anjos) que o serviam, e mil milhões os que assistiam diante dele” (Dan 7, 10).


Muitos teólogos deduzem que o número dos anjos é superior ao dos homens que existiram desde o princípio do mundo e existirão até o fim dos tempos. A razão disso é dada por São Tomás ao dizer que, tendo Deus procurado principalmente a perfeição do universo ao criar os seres, quanto mais estes forem perfeitos, Deus os terá criado com maior prodigalidade. Ora, os anjos são mais perfeitos que os homens, logo foram criados em maior número.

[Fonte: SOLIMEO, Gustavo A., Luiz S. Anjos e demônios - a luta contra o poder das trevas. São Paulo: Artpress, 1995.]

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I. Os Príncipes dos Exércitos do Senhor

Os anjos existem


Pela simples razão, independentemente da revelação, o homem pode chegar de algum modo ao conhecimento da existência dos anjos. Com efeito, a existência de seres puramente espirituais não repugna à razão. E um exame da criação, à mera luz do intelécto pode levar-nos à conclusão de que a existência de criaturas puramente espirituais convém à harmonia do Universo, pois assim estariam representados os três gêneros possíveis de seres: os puramente espirituais, acima do homem; outros, puramente materiais, abaixo do homem; por fim, seres compostos, dotados de matéria e espírito —   os homens.


E a crença comum dos povos, constante em todos os lugares e em todas as épocas, sempre afirmou a existência desses seres de natureza superior aos homens e inferior à divindade.


Uma coisa, porém, é a mera possibilidade da existência de seres puramente espirituais, e outra é a sua realidade objetiva. A existência dos anjos (e dos demônios, anjos decaídos) seria para nós um problema insolúvel, não houvesse a tal respeito especial revelação divina por meio da Escritura e da Tradição,* que nos garantem a certeza da existência dos anjos.

* Tradiçâo, em sentido amplo, é o conjunto de idéias, sentimentos e costumes, como também de fatos que, numa sociedade, se transmitem de maneira viva de geração geração.

Em sentido estrito teológico, chama-se Tradição o conjunto de verdades reveladas que os ástolos receberam de Cristo ou do Espírito santo, e transmitiram, independentemente Sagradas Escrituras, à Igreja, que as conserva e transmite sem alteração.

Essa revelação foi feita a nossos primeiros pais, e se conservou na  Humanidade, por via de transmissão oral pelos Patriarcas. Com o tempo (e também por obra do demônio, sem dúvida), essa revelação primitiva foi-se corrompendo, restando dela meros vestígios no paganismo antigo e no atual. Nas brumas desse paganismo encontramos seres incorpóreos, ora malfazejos ora benignos, quase sempre cultuados como divindades ou quase-divindades.


Para preservar o povo judeu da contaminação por essa deformação politeísta pagã, os Autores sagrados, durante largo período, evitaram mencionar nominalmente o espírito das trevas. E, pela mesma razão, não se encontram muitos  pormenores no Antigo Testamento sobre a natureza dos anjos e dos demônios, embora sejam mencionados a cada passo. A revelação definitiva só se verifica Nosso Senhor Jesus Cristo. Porém, a Bíblia não traz toda a revelação sobre o mundo angélico, sendo necessário recorrer à Tradição, Esta, como se sabe, encontra-se recolhida nos documentos dos Santos Padres* e escritores eclesiásticos dos primeiros tempos, assim como nos documentos do Magistério - Papas e Concílio -  na Liturgia e nos monumentos da Antiguidade cristã (catacumbas cemitérios, etc.).

*Chamam-se Santos Padres ou Padres da Igreja certos escritores eclesiásticos antigos, que se distinguiram pela doutrina ortodoxa e santidade de vida e são reconhecido Igreja como testemunhas da tradição divina.


A existência dos anjos é uma verdade de fé,* provada pela Escritura e pela Tradição. A Sagrada Escritura refere-se inúmeras vezes a seres racionais, inferiores a Deus e superiores aos homens; logo, segundo ela, esses seres, que nós denominamos anjos, existem.


* Verdade de fé é aquela que se encontra na Revelação e é proposta pela Igreja aos fiéis como verdade que se deve crer. A negação pertinaz de uma verdade de fé constitui a heresia.


Essa verdade foi definida solenemente como dogma pelo concílio IV de Latrão (1215): “Deus.., desde o princípio do tempo criou do nada duas espécies de seres — os espirituais e os corporais, isto é, os anjos e o mundo”. De forma igual se expressa o I Concílio do Vaticano (1870).

[Fonte: SOLIMEO, Gustavo A., Luiz S. Anjos e demônios - a luta contra o poder das trevas. São Paulo: Artpress, 1995.]

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